Courela

"Pai, porque é que tens tantos livros?" "Fui comprando" "Já os leste todos?" "Haa... vou lendo..." (24.11.2008)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Alfredo Margarido, As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos

Estudo sobre a descoberta da nova flora durante a expansão portuguesa e das formas como esta foi integrada no quadro intelectual, bem como das transferências intercontinentais de plantas. É o surgimento da Ecologia-Mundo, dínamo da Economia-Mundo. Recusa a visão da expansão economicamente centrada na busca de especiarias. Esta articula-se com a "culturalização" da natureza pela introdução das plantas mediterrânicas com tradução religiosa (uva e trigo) mas fundamentalmente com a adopção de culturas comerciais, objectivo logo inicial, como prova a introdução da cana-de-açúcar na Madeira.

O processo seguinte será de trânsito intercontinental de plantas, alterando a paisagem natural (e simbólica), em busca de resultados económicos. É este processo, global, que aponta como marcador do advento da Modernidade. E que vê cruzado, nos seus sucessos e insucessos, pelas resistências diferenciadas das populações às adopções alimentares, derivadas do etnocentrismo alimentar.

Analisa ainda os processos como os cronistas e especialistas portugueses de XV e XVI narraram a descoberta da nova flora, inicialmente tentando reduzir a novidade ao quadro intelectual existente, em particular através das analogias escritas, posteriormente com o ilustrador Christoual Acosta (meados de XVI) tentando explorar as divergências encontradas face à flora conhecida - ou seja, o autor valoriza a tecnologia de comunicação enquanto factor de produção intelectual. Lembra ainda como com autores como Duarte Barbosa e Garcia da Orta se rompe, pela primazia do conhecimento empírico e experimental, com a autoridade dos textos da antiguidade, em particular com a influência de Plínio, esse generalizado processo do Renascimento.

Defeitos: sendo o livro profusamente ilustrado com gravuras da ópoca sobre plantas estas não estão identificadas. Regista-se ainda que sobre muitas das plantas que são referidas como integradas no processo de transferência intercontinental são-no em breves textos, quase "fichas" de referência, sem particular detalhe sobre seus efectivos percursos históricos. Dando assim um ar inacabado ao trabalho

terça-feira, 24 de março de 2009

Torquato da Luz, Por Amor e Outros Poemas

[Torquato da Luz, Por Amor e Outros Poemas, Papiro Editora, 2008]


Meia centena de poemas, um lirismo entre a afirmação do amor e alguma utopia desencantada. Deixo dois poemas, entre a postura utópica e o desencanto (etário?).

Urgência

Não quererás o fácil, mas somente
o que não podes atingir.
Apenas o impossível é urgente:
tudo o mais há-de vir
por acréscimo ou simples acidente.

Não sonharás senão com o que está
para além de todo o sonho:
por mais absurdo e medonho,
só é real o que não há.

****

Cais

A sós, no cais, olhando o barco em que partia,
não era de ti que me despedia,
mas de mim, que nessa hora
sem acenos me fui embora.

Descobridor de mares que nem sequer sabia
que nome tinham, se era noite ou dia,
por longo tempo naveguei
até que, por fim, voltei.

Mas do cais da largada não restava já
lembrança alguma e muito menos há
muralha onde acostar.
E, sendo tudo em volta mar e mar,
não me resta senão continuar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009



[Somerset Maugham, Up at the Vila, London, Vintage Books, 2004 (1941)]


Uma pequena novela, de características teatrais. Mary Panton é uma jovem viúva inglesa, culminando o seu luto conjugal numa villa nos arredores de Florença no imediato pré-II Guerra Mundial. Aí depara-se com a necessidade de escolher entre um casamento com Edgar, um amigo do seu falecido pai, vinte e quatro anos mais velho, homem de carreira colonial, "construtor do Império" com o que isso significa de visão do mundo, que lhe dará a segurança e o prestígio que a sua parca herança não comporta. Ou uma opção romântica, a prossecução de um amor, através de um muito suspeito candidato, Rowley, um aparente bon vivant - que na prática ela regenerará através da paixão que lhe provocará. A trama não é particularmente interessante, nem as personagens surgem com profundidade, rigidamente esquiçadas, até caricaturadas no caso de Edgar e do jovem austríaco.

O que é interessante é o tom do tempo. Mary terá um episódio romântico-erótico, inusitado e inesperado com o jovem violinista (amador) que tentara animar um jantar num restaurante - na prática não é nada inesperado, a leitura do acto desse jantar deixa entrever que algo acontecerá entre ambos. Ou seja, os leitores sabem (ou intuem) mais do que os personagens, que nem realmente atentaram um no outro quando ali se cruzaram. Uma falha? Ou um sinal do envelhecimento da obra, imediatamente apreensível por quem a venha ler a posteriori, assente na leitura de tramas similares?

O que é interessante são os pruridos do autor - apesar do tom relativamente imoral da novela, com a "culpa" derivada do episódio ilegítimo a ser esbatida, até pela catarse havida. Com efeito a jovem burguesa inglesa deixa-se, em noite de reflexão sobre a aceitação de duas propostas de casamento, enlevar por um jovem e pobre italiano. Mas para logo depois perceber que afinal ele é um austríaco, ali refugiado. Ou seja a transgressão moral, com contornos de transgressão "racial" e social, é matizada pela comunhão anglo-saxónica dos amantes por uma noite. A noite transgressora não será, afinal, com um miserável latino, mas sim com um (socialmente) inocente austríaco. Pobre sim, mas dada a sua situação política, a de refugiado ao Anchluss.

E aqui brota a outra dimensão interessante do livro, a de que como ele surge como integrado no esforço de guerra. Publicado em 1941, em plena guerra, transmuta a imagem do amante latino, perturbador dos valores burgueses britânicos, da seriedade erótica da protagonista, num resistente austríaco ao nazismo, prisioneiro escapado a um campo de concentração - também por esse drama, apelando inconscientemente à paixão da viúva inglesa.

Aparentemente integrável no esforço de guerra, na idealização de uma resistência interna no mundo germânico.

Estrelas: 1

domingo, 28 de dezembro de 2008




Franz Kafka, A Metamorfose, Lisboa, Edições Europa-América, s/d, 2ª edição (tradução de J. Teixeira de Aguillar) [contém ainda os pequenos contos "O nosso advogado" e "Um médico de aldeia"]


"Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco insecto". É este o célebre começo. Do livro disse um sábio, George Steiner, no seu "Gramáticas da Criação", ser ele a "fábula-chave da modernidade" (16), pois indicia o retrocesso, anuncia a inversão da esperada ascensão, aponta o caminho da bestialização, passível (que não obrigatório) de ser percorrido pelo humano. Ou seja, n' A Metamorfose descobre a falácia e a falência do "progresso". Se esta foi a ideia mestra de XIX será com Kafka que emerge a torturada consciência de que não significa ele (o "progresso") a ascensão moral e racional que se pensava. A mutação não é o aperfeiçoamento da humanidade.

O nosso percurso é então o da possível, quotidiana bestialização. Mas não é de uma escatologia que se trata. O que angustia é a apresentação da naturalidade do retrocesso. Se o absurdo (a "insectização" do protagonista) é inesperado e doloroso o que supreende é a sua integração na normalidade (desde a sofrida solidariedade da irmã até ao corolário da acção higiénica da mulher-a-dias, esse avatar do senso comum, um pequeno e mudo monumento literário).

Gregor Samsa é um funcionário, um "burocrata" - na realidade é um caixeiro-viajante. Está preso ao trabalho, e à sua rotina ainda que esta lhe seja algo desagradável (mas não excessivamente, pois não é de uma revolta que se trata, apenas de um certo fastio) pelas suas obrigações familiares e morais, pois dele depende o ressarcir de dívidas assumidas pelos seus pais. Por isso integra perfeitamente, impregna-se, das suas obrigações de empregado - que derivam não só das necessidades económicas mas de uma adesão moral. Dado que inopinadamente se torna um insecto não pode ir trabalhar, mas porque não se consegue levantar, a sua intenção é a continuidade.


É esse outro, o insecto, o monstro, um de nós? Samsa, de súbito o Outro, continua consciente assumindo-se exactamente o contrário, crendo ser ainda o Humano. A forma como é tratado pela família assim o indicia, a monstruosidade porque familiar será escondida, mas não evacuada. Apenas o medo, devido à incompreensão dos seus movimentos (à incomunicabilidade radical) implicará a agressão letal, pois quasi-paralizadora, a laranja que se lhe incrustará sob a carapaça. O tempo decorrerá, e ao mesmo tempo que o hábito vai integrando essa realidade o fastio para com ela assumir-se-á. É o fastio e a incomodidade (o prejuízo causado com a fuga dos hóspedes), e não o medo, que implicarão a ruptura entre a sua família e o agora insecto. A diferença constrange, não quando irrompe, mas sim quando convive. Não é o excepcional que perturba, é o quotidiano ameaçado.


Estrelas: 5

domingo, 30 de novembro de 2008



Graham Greene, Um Caso Arrumado (A Burnt Out Case), Lisboa, Ulisseia, 1977 (1960)


Querry, o protagonista, é um arquitecto célebre, cuja fama lhe decorre em parte das igrejas e catedrais de que foi autor. Mundano, e agora sexagenário, está esgotado, percebeu que "Há um período da vida em que um homem, com um pouco de habilidade para representar, pode enganar-se até a si próprio" (174) e compreendeu a inanidade da representação. Segue sem sem fé na religião, sem fé no amor (do qual foi cultor), sem fé na profissão, sem fé em si mesmo. Está despojado.



Decidindo, num ápice, partir da Europa numa fuga ao vácuo que o oprime aporta, por mero acaso e incógnito, a uma leprosaria católica algures no Congo Belga (perto da capital provincial Luc, cidade inexistente) - como conclusão da subida de um rio [a metáfora conradiana tornou-se difícil de ultrapassar para os novelistas anglófonos que olham África]. Aí encontra Colin, o médico ateu, verdadeiramente pejado de amor pelo próximo, assente numa desencantada mas persistente crença na evolução, no progresso ["Não sinto amizade pelo pterodáctilo" (184)], assim recusando o cinismo, verdadeiro exemplo da dinâmica moralmente positiva dos progressistas.

"Um Caso Perdido" perde na tradução - burnt out case é a expressão atribuída aos leprosos que se curaram, mutilados "O êxito é uma mutilação" (282). A opção está entre a mutilação, enquanto cura, e a dor, devido ao atrofiamento muscular. Querry é o mutilado da fé, mas também é o paciente, submerso numa dor do atrofiamento (da graça, como dirá um dos padres). Nada há nele dos outros: farto de mulheres, que usou para se amar (para delas retirar amor), farto de construir, pois nele as construções são conspurcadas pelas pessoas que as usam. Está abandonado no seu mundo próprio, forma de desespero, "onde o riso era como um sibilar desconhecido de uma língua inimiga" (20).

É nesse universo que encontra uma imagem positiva do catolicismo, que quis (? ou teve de) afrontar, nas múltiplas formas em que é ali vivido: sim, o próprio Colin, caritativo na sua solidariedade, cheio de silencioso amor (o médico que mexe nas chagas dos leprosos apenas para que eles sejam mexidos, não-evitados) afinal também símbolo do quão cristã é a crença progressista ocidental, mesmo nas suas variantes científico-racionalistas; e os padres, mais preocupados com as questões materiais necessárias para ajudar o seu rebanho leproso, nada preocupados com as práticas sexuais e conjugais nada "católicas" ali praticadas ("em cada país seus costumes", dirá um deles), tão longe do arquétipo seminarista, nítidos efeitos da influência do real. Com isto contrastando o vácuo céptico do jornalista ali chegado em busca de Querry mas acima de tudo com as certezas, impenetráveis ao real e humano, torcendo as ideias alheias e até o catolicismo, características do padre mais ortodoxo (Thomas, afinal ambicioso) e do colono católico Rycker, exemplo máximo da hipocrisia inconsciente e da petulância. Mas também eles, afinal, parte do todo - como pode Querry, se de tudo tinha desistido, recusar algo, recusar as personagens irritantes Rycker e Thomas? É aliás a irritação com Rycker que anuncia o regresso de Querry à efectividade sentimental. Pois passa a preocupar-se.

Quarenta anos depois da sua escrita é interessante uma outra abordagem: Greene fala dos "colonos", retrata-os como universo próprio na própria Europa, até aí frequentando os mesmos restaurantes, as mesmas praias, mantendo a sua unidade, sabendo-se também gente desprezada pelos outros europeus. [203-204).

Mas, muito interessante é a noção de África e dos africanos. Se Greene é um escritor envolvido na realidade (Haiti, pós-guerra europeu, México, abordados noutros livros), aqui ela perpassa como uma longínqua nuvem. Apenas na festa de inaguração do novo hospital se acolhe a ideia de que algo (e não particularmente benéfico) está a caminho - um pequeno grupo de leprosos, de longínqua origem e diferente língua, canta algo pouco simpático para os padres e médicos ("os brancos nada sabem ..."). Alguns rumores, nada explícitos, de conflitos na distante (e invisível) capital. E nada mais. Certo que o conflito existe e Greene assume-o: as crenças aparentemente irracionais de que o material médico recém-chegado servirá para torturar os doentes são talvez não tão irracionais assim pois "Hola Camp, Sharpville e Argel justificam todas as crenças possíveis na crueldade dos europeus." (62). Mas na realidade há um hiato, uma diversa humanidade entre europeus e africanos que é explicitada: "O passageiro do camarote [Querry] ... O capitão ... Navegavam os dois juntos e sozinhos no rio havia dez dias - sozinhos se exceptuarmos os seis membros da tripulação africana ou a dúzia de passageiros da coberta ..." (11) enceta o livro, demonstrando de imediato os dois universos que são impenetráveis, um porosidade apenas permitida pela caridade cristã - católica, à moda pragmática daqueles padres e freiras; ateia - à moda do doutor Colin; auto-salvadora, à moda de Querry. Os leprosos, os africanos, são a matéria-prima do devir espiritual dos europeus. Há entre estes e os africanos uma proximidade física, "Mas eram como pessoas observando-se como telescópios a uma imensa distância." (204), uma distância que não é só cultural ou linguística. Querry está a redescobrir-se mas também a descobrir-se. Por isso atentará, devido ao acidente do seu criado Deo Gratias, que "Nunca tinha realmente ouvido falar um africano até então. Bem sabe como é, ouvimo-los sempre meio distraídos, como se ouvem as crianças." (84).

Estrelas: 5

Adenda:
Um grupo de leitores do livro que trocam opiniões

quinta-feira, 27 de novembro de 2008



[Evelyn Waugh, Um Punhado de Pó (A Handful of Dust), Lisboa, Cotovia, 2008 (1934) (Tradução de Daniel Jonas)]



Tony e Brenda Last são casal quase exemplo, enredados numa morna relação. Vivem em Hetton Abbey, a mansão familiar dos Last. Ela, sentindo-se acantonada, enfastia-se. Ele, proprietário terratenente semi-arruinado, algo pedante e vácuo, esgota os seus interesses na preservação da casa e na continuidade já anacrónica do velho modo de vida local, que considera associado ao seu estatuto. O tom satírico de toda a trama desvenda-se nas características neo-góticas do edifício, então fora de moda, assim desvalorizando aos olhos alheios todo aquele empenho, até ridicularizando a personagem. Um ridículo que é também desvalorização social, pois denota-lhe a ausência do "gosto correcto" da época, desajustando-o ao seu meio social.

O pano de fundo é o quadro da decadência entre-guerras (anos 1930s) dos proprietários ingleses (as grandes casas como sobrevivência de tempos passados, é uma afirmação dos trabalhistas ecoada por uma das personagens), a qual obriga a economias de minudência (os bilhetes de comboio de terceira classe, os pequenos negócios da vendedora Beaver, as opções sobre aquisições ou obras domésticas, as preocupações de alimentação em regime de quase miséria, etc) que tudo contrastam com a auto-percepção do grupo enquanto elite e com as suas práticas sociais (as festas, os clubes - modos de fazer e reproduzir uma topologia de estatutos sociais), o que também vai traduzindo o jogo de aparências públicas necessárias para a manutenção de um estatuto social.

A sátira desvendadora estende-se ao ambiente moral vigente. Disso exemplo é o eco na "sociedade" do caso amoroso entre Brenda e o empobrecido e desinteressante Beaver, uma relação sem particular encanto. É uma recepção até divertida, encarando-a não como escândalo mas como evento necessário à quebra do fastio rotineiro, o "adultério da estação". Mas, por integrável que seja na rotina, não ofendendo sobremaneira os valores vigentes, a relação implica a manutenção, subtil do statu quo: Beaver não recolhe nenhuma ascensão social dessa relação com Lady Brenda (a ruptura consumar-se-á em parte devido ao inderimento da sua candidatura a um clube) e esta enfrenta um horizonte de muda queda económica e social devido ao seu caso amoroso. Corolário deste tom é a afirmação do pragmatismo sentimental, o recasamento de Brenda com o amigo da família Jock Grant-Menzies – para quem conheça estes caminhos literários é algo expectável ao longo da narrativa, ainda que nunca indiciado, o que empobrece a trama. O pouco eco da morte dramática de John Andrew, o petiz herdeiro dos Last, será também traço distintivo de uma aparente superficialidade sentimental geral – ou, o que me parece mais claro, uma pobreza devida à economia narrativa, até porque contrastando com a questão fundamental do livro, a da vontade de perenidade.

A centralidade da questão económico-social denota-se no destino de Tony Last: perde primeiro a mulher, devido à sua "distracção", monopolizado pelos assuntos da propriedade; perderá o filho num coreagrafado acidente de caça, resquício do modus vivendi senhorial (e no qual a intervenção de um autocarro é símbolo de uma modernidade [tecnológica] que vem disromper a geneo-lógica vigente); perder-se-á a si próprio, finalmente, devido à sua recusa no divórcio. Com efeito, ao ser confrontado com as exigências financeiras da mulher - ainda que ela seja a adúltera [e toda essa situação, portanto o próprio destino do livro, incrusta-se nas características legais de então] -, que o obrigariam a vender a propriedade, portanto implicariam uma radical destituição sociológica (de conteúdo espiritual), Last recusa-se a conceder o divórcio. Algo que o impele a um período de nojo, um afastamento sazonal que lhe permita “manter a face” no seio do seu meio. A viagem final em que incorre é assim causada pelo seu desejo de imobilidade, social e geográfica.

Mas nela, e seus efeitos, explicita-se também uma concepção individualista dos percursos sociológicos, pois são as tramas conjugais que demonstram a incapacidade individual de manter, estrategicamente, o estatuto social herdado. Ou seja, os efeitos da viagem, que causa o desapossamento radical (da liberdade e da vontade, o proprietário feito escravo) fica explícita a mensagem subliminar: o desastre individual é causado pelas estratégias que procuram suportar o primado da propriedade, num meio social terratenente serôdio.

Enxertado no livro, culminando-o, surge o conto "O homem que gostava de Dickens", uma curta saga amazónica, cuja conjugação parece pouco plausível. Irrealidade que nem o tom satírico da novela minora, pois ele ancora num realismo explícito. Há até uma disparidade de ritmos narrativos, a vibrante descrição da selva contrasta com o calmo, e até viperino, realismo descritivo do ambiente tardo-eduardino. Contraste talvez legitimado pelos diferentes contextos, mas causando estranheza, até incoerência.

E que também contrasta com as características do protagonista. Certo que nele culmina a continuada apatia de Last, a concepção de que as mudanças geográficas não mudam as personalidades (“Para quê viajar?”, será a questão), ainda que lhes possam alterar (e até inverter) os estatutos. Mas é também certo que o próprio perfil aventureiro da viagem é infundamentado, não condizente com o conteúdo psicológico do protagonista, e muito pouco justificável pela dimensão da personagem Messinger, o explorador que dinamiza a viagem (influenciando o influenciável Last), mas cujos traços meramente esboçados, quase caricaturais, não convencem como potencial dínamo.
.
No entanto as linhas de ruptura entre a novela e o enxerto centram-se no objecto fundamental: é certo que o episódio final demonstra que o civilizado em queda escravizado pelo bárbaro, o anacrónico Last vitimizado pelos novos tempos e assim condenado a servir, ecoando o saber racional moderno a quem, ainda que apreciando-o (o som das palavras) verdadeiramente não o percebe – que dickensiano apaixonado, como Todd aparenta ser, escravizaria um indefeso? É uma polissémica crítica da exportação da modernização, casando os dois núcleos textuais.

Mas mais fundo está a tal ruptura: pois Todd, na sua rudeza curiosa e amoral é símbolo da barbárie. Não da selvajaria, essa característica da inanidade dos ameríndios que o rodeiam – e que na sua maioria deles descendem, grande procriador que se reclama. Filho mestiço e analfabeto de missonário anglófono, deste herdou não só uma mala de velhos livros como a paixão por Dickens. Não é um selvagem, é um bárbaro, estádio intermédio da evolução que lhe advém da ascendência biológica e do contacto civilizado (e cristão). Mas é também um estádio intermédio da involução, aos seus múltiplos filhos não transmitiu essa vontade imaginativa. Em ambos os cenários, o britânico e o amazónico, Waugh fala da "Queda". Todd, na sua boçalidade inane, é um avatar de Last, procurando manter a sua Hetton Abbey, o seu Dickens ali anacrónico, ali absurdo. A escravização de Last, a sua putativa morte, é uma osmose. Ou seja, a barbárie está no destino de Todd e no de Last, a dissolução da mensagem passeia-se em Todd a caminho da selvajaria, a sua Queda está também em Hetton Abbey.

Há ainda o final alternativo, remedeio que Waugh compôs para possibilitar a publicação do livro nos EUA, onde o conto já tinha sido editado autonomamente. Ainda que a narrativa possa assim parecer mais coerente com o registo anterior do que o enxerto amazónico aparenta, o certo é que não só o tom muda radicalmente (o texto aparenta ter sido escrito de rajada, por razões pragmáticas) , mas também o ideário. Aqui o casal sobrevive enquanto tal, mas com papéis actuantes invertidos: Tony regressa a Londres, mergulhando nas teias da infidelidade, Brenda recolhe a Hetton Abbey, à domesticidade reprodutiva assim assegurando a perenidade. É notória a inflexão do conteúdo moral. Não é de Queda que se fala, mas da Ressureição, para a qual apenas se exigirá a alteração das práticas individuais – de novo o individualismo. Que a apatia de Last se desvaneça, que Brenda se recolha e a continuidade sobrevirá. Um conformismo individualista que ultrapassa, por completo, qualquer intenção satírica.

Finalmente. A tradução aparenta ser pastosa (algo que surge "escondida na ideia", por exemplo), sublinhando que Waugh se lê no original. Para mais a edição tem notas algo desnecessárias (uma nota explicitando o que é "Senegal" será necessária? Um mapa legendado não substituiria as cansativas notas – no fim ainda para mais – relativas a zonas e bairros londrinos?)

Estrelas: 3

Adenda: Waugh na Wikipédia; A Handful of Dust na Wikipédia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008



[Graham Greene, O Mundo dos Ricos (Doctor Fischer of Geneva or The Bomb Party, 1980), Lisboa, Europa-América, (tradução de J. Teixeira de Aguilar - também é bloguista)]

Alfred Jones é um vulgar cinquentão viúvo, mero tradutor numa fábrica de chocolates suíços, cuja modéstia de horizontes e inexistência de ambições cristaliza a sua relativa decadência social, filho que é de um antigo diplomata britânico, nobilitado em fim de carreira. Num inusitado coup-de-foudre vem a casar-se com Anna-Louise, a muito jovem filha do Doutor Fischer, milionário por via da invenção de um dentífrico, personagem basto desagradável, repugnante à filha devido aos maus-tratos psicológicos à sua mãe, morta por desgosto, infere-se.

A trama romanesca praticamente não existe, é um encontro ocasional que faz ultrapassar os trinta e cinco anos de diferença entre ambos, mais denotando o vácuo (o limbo?, adiante referido no habitual registo teológico em Greene) das respectivas existências. Aparentemente seria uma ligação freudiana. Mas a homologia etária entre Jones e Fischer (marido e pai) associa-se a uma inversão de outro âmbito. Se Jones corporiza um lento declínio social fá-lo através de uma desistência existencial, uma inanidade biográfica próxima da realização pessoal, a qual associa a uma (relativa) pureza de sentimentos, apenas mitigada pelo orgulho da pobreza que Fischer virá a desnudar. Isso confronta-o ao seu sogro, cujo enriquecimento o fez ascender socialmente, processo que lhe faz advir uma tal insatisfação, um desagrado feito de objectivos pragmáticos realizados, um tudo isso que o torna um cúmulo de desagradável. É uma ironia, até algo explicitada por Jones, o facto de Fischer ser o impuro que é por produzir um produto higiénico e Jones ser quem é (dotado de pureza de sentimentos) enquanto trabalha para os poluentes (pois nada saudáveis) chocolates - o inverso dos seus estados de alma, a radical oposição de perfis.

Este livro é normalmente apresentado como dedicado à crítica da cobiça e da ganância. Pois retrata o destino escolhido de Fischer, fazendo-se rodear de falsos amigos, gente mui rica à qual aviva a cobiça que lhes é própria (enquanto ricos) ao cumulá-los de preciosos presentes, corolários de grotescos jantares ritualizados, durante os quais se dedica a maltratar e humilhar os circundantes, condição essa sine qua non para a recepção das ofertas. [Honestamente, a trama é muito pouco plausível e pouco interessante] É isso, reclama, o seu estudo sobre a natureza humana, a sua reflexão teológica sobre a alma humana, dir-se-ia, se no constante registo de Greene. Mas o que transpira ao longo do texto é que Fischer surge aos humanos olhos da filha (e de Jones) como o inquietante e perturbador arquétipo do mal, a diabólica desumanidade.

Mas não será assim. No diálogo entre os cônjuges concluirão que o milionário não tem alma. Pois se "Quando se tem alma, não é possível estar-se satisfeito consigo próprio." diz Alfred Jones (89) explicando a sua vaga religiosidade cristã em resposta à questão de Anna-Louise:"Toda a gente tem alma, não? Quer dizer, desde que se acredite na alma.". Para ele "Essa é a doutrina oficial, mas a minha é diferente. Acho que a alma se desenvolve de um embrião, tal como nós. O nosso embrião não é ainda um ser humano, tem ainda qualquer coisa de peixe, e o embrião da alma não é ainda uma alma. Duvido que as crianças pequenas tenham mais alma do que os cães. ... Talvez fosse por isso que a igreja católica inventou o limbo." (88-89)

Mas tudo culmina na festa final, e em sentido inverso, como se o livro fosse um romance de formação interrompido (pela morte precoce de Anna-Louise), dotando os personagens de saber e dúvidas. Aí se suicidará o seu pai (e se a tentação suicida de genro e sogro é nada católica, em cenário greeniano ela é até recorrente) . Não sem antes Jones o invectivar, descobrindo-o "como V. se deve desprezar". Assim, afinal, o mal (Fischer) tem alma, descontente do seu aparente sucesso, por ele feito histriónico. É essa a mensagem do livro. Como sempre o mal radica em nós, o humano bem real.

Ainda assim, para mim o pior livro de Greene.

Estrelas: 1

domingo, 23 de novembro de 2008



(Arturo Pérez-Reverte, Território Comanche, Lisboa, Presença, 1997. Tradução de Maria Bragança)


Um livro azedo, corporativo, meio ajuste de contas com colegas, meio ajuste de contas com os outros todos. Coisas de veterano repórter de guerra, aqui narrando as andanças na guerra nos Balcãs de 1990s, afirmando à exaustão a sua superioridade sobre todos os outros, superioridade cognitiva, superioridade moral, aliás como se ambas se interproduzissem. O meu primeiro Reverte, talvez o último. E com bocados ou mal escritos ou mal traduzidos (mas qual o sujeito da frase? ocorreu-me várias vezes, letal para um tipo de escrita que se quer curta e incisiva). Por tudo isso, desnecessário.

Por isso os Balcãs entraram a escorrer sangue no século XX e entrarão da mesma maneira no século XXI, por muitas patranhas que nos conte o ministro Solana. O nacionalismo sérvio, todos esses intelectuais que agora pretendem lavar as mãos deois de parir criminosos como Milosevic e Karadzic, manipulou esses fantasmas para fazer frente aos que não queriam a guerra. E o chamado Ocidente, ou seja, vocês e eu, permitimos que assim fosse. Os métodos mais sujos foram postos em prática, perante a passividade cúmplice de uma Europa incapaz de dar um murro na mesa a tempo e travar a barbárie. Esta diplomacia europeia sem pudor e sem coragem, gratificando a agressão sérvia com a impunidade, acordando tarde demais, fez que primeiro croatas e depois muçulmanos bósnios embarcassem na limpeza étnica e na degolação. Já que a canalhice é rentável, disseram para consigo: sejamos canalhas em vez de vítimas a caminho do matadouro.” (77)

É que a antiga Jugoslávia estava cheio de domingueiros. Os capacetes azuis espanhóis chamavam-lhes japoneses porque chegavam, tiravam o retrato e iam-se embora assim que podiam. Passava pela Bósnia gente de toda a qualidade e procedência: parlamentares, intelectuais, ministros, presidentes do governo, jornalistas cheios de pressa e cretinos em geral, que ao regressar à civilização, organizavam concertos de solidariedade, davam conferências de imprensa e até escreviam livros para explicar ao mundo as razões profundas do conflito. … Estas excursões bélicas andavam, em média, entre um a três dias, mas a toda essa gente isso bastava para captar o essencial da história. ….

Entre os domingueiros da guerra havia também militares de alta patente que se deixavam cair ali em visita de inspecção do tipo olá, que tal, chavalos, e isso. Na Bósnia, reconheciam-nos logo por causa da máquina de fotografar, do ar paternal e, sobretudo, por causa do uniforme, capacete e colete à prova de bala impecavelmente limpos e novos.” (22-23)

Uma vez, Barlés ouviu uma descompostura dos seus chefes por negar-se a entrevistar no telejornal Susan Sontag, que nesse altura montava À Espera de Godot com um grupo de actores locais em Serajevo.” (92)

sábado, 22 de novembro de 2008



Patrick Suskind, A Pomba, Lisboa, Presença, 1987 (Tradução de Teresa Balté)


Livrinho que nem merece ascensões a críticas, apenas recensão do que vou folheando. Mas ainda assim esta mostra do absurdo tailorista (modernidade?), como concentracionário higienista, psicanaliticamente explodindo dado o magma do nazismo, é muito arrumadinho e explicadinho para o meu gosto.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008



Pedro Juan Gutiérrez, O Nosso GG em Havana (D. Quixote, 2007, tradução de Magda Bigotte de Figueiredo)


De quando em vez brota mais um escritor de moda. E nestas décadas vai acontecendo com os latino-americanos, muito a jeito por questões mais ou menos políticas. Há alguns anos foi-me enchida (e por minha culpa também) a casa de pequenos e manuseáveis livros - tinham essa vantagem - de Luis Sepúlveda. Uma maçada trivial, diga-se. Mas não só latino-americanos, também toca aos anglófonos (normalmente a área ideológica dos elogiadores é outra: tem muito a ver com os ícones Upstairs Downstairs e Che Guevara, uns sonham-se myladys outros comandantes, e transpõem isso para o que dizem dos livrecos). Nisso de anglófonos lembro-me do espanto ao ler o muito incensado e premiado "Amsterdam" de Ian McEwan. Tinha uma trama qualquer, que esqueci, mas que foi completamente previsível. E tinha em fundo e superfície um nada. E tanta tralha, e in e out-blog, que lera no elogio …

Desabafo que vem a propósito deste O Nosso GG em Havana, que me chegou muito recomendado. Cubano exo-Castro, desbragado, mito boémio etc e tal, o autor rende. Dele já lera “Carne de Cão”, sexo desbragado (os protagonistas - ronda de alter egos - gostam de fornicar na água do mar) e muito rum, alguma piada adolescente. Daí que me deixei ir na onda, 10.80 euros a menos no orçamento familiar também não é tanto assim.

Começa grotesco, um tal de George Greene arriba a Havana, é confundido com Graham Greene, e envolve-se com um travesti histriónico com uma pila de 40 cms. Escusado será dizer que negro, Gutiérrez tem uma fixação em pilas negras que chega a ser pungente. Depois arranja (arranjará?) um enredo policial, traz o verdadeiro Graham Greene à cidade, em descanso do gestação do “Quiet American”. Aí Gutiérrez acalma o grotesco - mas não o tom etnográfico sobre os pirilaus afro-cubanos - e dedica-se a uma ficção ensaística, misturando de forma paupérrima uma inenarrável trama pró-espionagem com uma explanação sobre o cerne de Greene/Fowler (o protagonista do Americano Tranquilo), enceta o “Factor Humano”, e remata as constantes deambulações entre o bem e o mal que o velho, e verídico, Greene dirimiu ao longo da vida.

Enfim, o livro é uma mera merda. Nem vale o desabafo. Este só encontra causa ao ver os elogios, seja na escrita de jornal, seja até em quem mo recomenda. Vamos ler coisas de jeito? Resistir ao marketing? Ao comercial e ao político. Livros não faltam. E na política, francamente, antes o Fidel Castro …

terça-feira, 19 de agosto de 2008



Pedro Juan Gutiérrez, Carne de Cão, Lisboa, D. Quixote, 2005 (tradução Jorge Fallorca)


Rum e Sexo. Muito de ambos. O protagonista (alter ego?) instalou uma pérola na glande, para potenciar a potência. É esta pérola o único adorno visível (?) numa escrita despojada - lembrando os ancestrais neste tipo. Nunca tinha lido este Gutiérrez, histórias (como se contos, como se episódios) com garra ainda que a darem a sensação que chegadas depois de muitos outros livros já havidos. Entenda-se, a rapar o tacho. Mas saborosas. Se calhar por isso, por ser uma descoberta de autor.

Um fatalismo um bocado blasé: "Não sabem que a sorte é de quem a encontra e não de quem a procura." (95), a sublinhar esta ideia de que não é tão original, uma sensação de pose literária

Ensaio sociopolítico sobre a Cuba local: "Recordo aquela época aborrecida, há quinze anos. Do meu apartamento, no quarto andar, só se via uma serração e outros edifícios, todos idênticos. Nunca se passava nada, éramos todos bons e correctos, obedientes e disciplinados. Agora é o contrário: somos todos maus e incorrectos. As mulheres, ao ataque, as pessoas cínicas e perversas. Todos desesperados numa correria louca e desenfreada atrás do dólar nosso de cada dia. É preciso avançar seja como for e deixar a merda para trás. Está bem. Gosto. Pelo menos não é aborrecido. E as pessoas tiraram a máscara. Nada de aparências. Agora é a época do caos e da vertigem. Garras e presas, à beira do precipício." (147-148) A fazer lembrar outros contextos pós-comunistas, com reconstruções dos "tempos" antigos, sobrevalorizando características do então (até surpreendentes). Mas, honestamente, coisa longe da literatura.
Feito com todo o vagar este é um sítio de arrumação de ideias (e informações) sobre alguns livros. Para que um dia, bem mais tarde, a filha da epígrafe as leia e os leia, se lhe apetecer.

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